Antecedentes Histórico
Políticos da Fundação da Gestalt-Terapia nos EUA

Graça Gouvêa

A eclosão da gestalt-terapia enquanto uma abordagem psicoterápica de sucesso nos EUA ocorreu nas décadas de 60/70, e se deu em função de vários fatores concomitantes, entre os quais devemos considerar:

- a política de saúde mental vigente nos EUA na época da emergência da Gestalt-Terapia (GT), uma vez que havia um estímulo à substituição do modelo asilar na assistência psiquiátrica pública, para o modelo de centros comunitários de saúde mental (1966). O que criava um espaço para técnicas de intervenção psicoterápica, grupal e multiprofissional, e a saúde mental deixava definitivamente de ser uma exclusividade da intervenção médica;

- o incremento de pacientes neuróticos vítimas de neuroses traumáticas do pós-guerra, que exibiam sintomas passíveis de melhoria rápida após catarse (Perls foi psiquiatra do exército durante a II Guerra);

- Perls ( principal autor da Gestalt-terapia) tinha uma personalidade rebelde, anárquica, ( consultar bibliografia, ref.: livro 16, págs. 44 à 61) correspondia a um determinado perfil de liderança muito carismática para a época (anos 60), sendo ele considerado uma personalidade significativa pelo movimento hippie;

- a exclusão aos psicólogos feita pela Associação Psicanalítica Internacional (A.P.I.), que somente reconhecia e legitimava o exercício da psicanálise realizado por médicos ( o que só começa a perder força a partir do final da década de 70, com a perspectiva de uma legitimação através da formação dada pela escola francesa, de Lacan, que também era proscrito pela A.P.I.);

- o surgimento do chamado "Movimento Humanista" em Psicologia, como opção à Psicanálise e ao Behaviorismo, que estavam estabelecidos e eram legitimados pelas faculdades e centro formadores, mas que não atendiam plenamente as novas demandas psicológicas da segunda metade do nosso século, seja por excesso de elitismo, seja por limitações de referência simbólica.

A partir de 1968, com os movimentos estudantis, a reação à guerra contra o Vietnã e o impulso dado à transformação dos valores vigentes, criaram-se as condições necessárias para a expansão da gestalt-terapia nos EUA. Entre 1972 a 1976 foram abertos trinta e sete institutos de formação, onde até então havia apenas quatro: os de Nova York e Cleveland - criados na década de 50 - e os da Califórnia - em Esalen e em S. Francisco - abertos no final da déc. 60. Progressivamente a disseminação de novos centros formadores se deu pela Europa, América, e países mais distantes como a Austrália e o Japão, que possuem hoje centros de formação em gestalt-terapia.

No entanto, neste percurso estabeleceu-se uma marca de uma GT como uma abordagem "rebelde", onde não se dava ênfase ao conhecimento teórico e sim à formação vivencial e prática do terapeuta, além de uma valorização da pessoa do terapeuta, em lugar da valorização da abordagem (gerando grande individualismo), promovendo um preconceito e justificando a crítica, feita pela Psicanálise, de uma abordagem "tecnicista e superficial", crítica que, ainda hoje, impregna a muitos, psicanalistas ou não.

Esta idéia superficial da Gestalt-terapia, no entanto, está dando sinais de mudança, em função da produção teórica dos novos gestalt-terapeutas e da organização de centros de referência e formação reconhecidos.