O QUE É UMA FORMAÇÃO
A atividade psicoterapêutica tem uma especificidade própria, diferente de todas as outras atividades profissionais em geral, pois ela é uma atividade que o tempo todo deve remeter à profundidade existencial das pessoas, ela tende a "tocar" quem realmente somos...
Quando o psicoterapeuta efetivamente assume a possibilidade de enxergar como um ser humano se apresenta na frente de outro ser humano - e considera este lugar como sendo mais fundamental do que o lugar de ser um profissional na frente de um cliente, paciente, consulente etc - necessita, para isto acontecer, de um preparo teórico e emocional adequado, para acompanhar o processo de autoconhecimento do outro ser humano que o procurará. Para tal preparação eficientemente ocorrer, é necessário que o psicólogo que deseja ser psicoterapeuta faça um curso de formação clínica.
Atualmente, há vários métodos clínicos diferentes em psicoterapia. Dentre estes, a abordagem gestáltica é uma metodologia que objetiva viabilizar o contato do cliente com sua dimensão existencial, utilizando a relação dialógica com o terapeuta para isto, através de um espaço experiencial onde sejam possíveis a expressão de emoções, o reconhecimento de comportamentos, a articulação dos pensamentos com o contexto vivido e a deliberação de ações que viabilizem um mais amplo contato com ele próprio. O terapeuta reconhece, dessa forma, e procura trabalhar, com a perspectiva de um ser humano integral que vive em um mundo que é constituído de sentido para ele na relação com os outros.
Deste modo, para a transmissão do conhecimento da abordagem gestáltica, entendemos que é necessária uma metodologia pedagógica que seja coerente com o objetivo de uma preparação que efetivamente facilite o amadurecimento existencial do aluno, futuro psicoterapeuta.
Este texto visa esclarecer como é o método pedagógico empregado no processo de formação terapêutica desenvolvido pelo Instituto de Psicologia Gestalt em Figura. Serão ressaltadas as diferenças de forma comparativa com outros métodos pedagógicos.
1.1 Outros métodos: ênfase sobre a matéria a ser dada e,
consequentemente, na aferição disto em termos de provas e testes.
1.2 Nosso Método: ênfase na compreensão do aluno, consequentemente a aferição do conhecimento se dá na própria situação do aprendizado, enquanto este vai acontecendo, através da participação de cada aluno na construção do conhecimento. Há trabalhos de avaliação para entregar, porém estes visam mais a facilitação do estudo dirigido.
2.1 Outros métodos: como a ênfase é a matéria, um professor pode dar aulas para tantos alunos quantos couberem nas salas de aula. Logo, uma turma de 20, 30, 40 pessoas não faz diferença, pois a aula é dada da mesma forma. Tal método facilita a fragmentação do curso em "matérias" e a contratação de professores que não acompanhem o processo global da turma na assimilação cognitiva e emocional dos conteúdos dados.
2.2 Nosso método: como a ênfase é no aluno, um professor responsável sempre acompanhará a evolução de cada aluno individualmente. Logo, uma turma sempre será formada com um número de alunos que permita este acompanhamento individual, por exemplo, turmas de até 15 pessoas. Mesmo com outros professores convidados, sempre haverá a presença de um professor formador que, acompanhando os processos individuais, pode melhor ajudar cada aluno na assimilação cognitiva e emocional da disciplina dada.
3.1 Outros métodos: Há uma tendência à homogeneização do estilo de
trabalho psicoterapêutico, já que ele é igualmente transmitido a todos e não há como detectar e incentivar o estilo pessoal de cada aluno em relação ao trabalho psicoterapêutico que poderá realizar.
3.2 Nosso método: Há uma tendência à diferenciação, já que, acompanhado
individualmente, são mais bem detectáveis e incentivados o desenvolvimento dos recursos próprios de cada aluno, o estilo próprio de olhar, de forma a permitir melhor segurança na hora do atendimento psicoterapêutico.
4.1 Outros métodos: Não há tempo ou abertura para se trabalhar uma das principais características da abordagem gestáltica, que é a ênfase sobre a percepção, no aqui-e-agora, através do contato com a própria dinâmica interpessoal que acontece na turma. Desta forma, sempre "se fala sobre" teoricamente, excluindo a própria experiência individual ou grupal do aluno; pouco ou nunca se vivencia a própria situação.
4.2 Nosso método: Todo o tempo é mostrado ao aluno sua implicação existencial em relação ao que está sendo trabalhado. Logo, os aspectos pessoais, individuais ou grupais que emergem durante a formação são considerados materiais valorizados de trabalho, pois entendemos que, futuramente, tal atenção ao que efetivamente está acontecendo em torno de si será fundamental para um bom trabalho terapêutico.
5.1 Outros métodos: como a ênfase é sobre a matéria e não sobre o aluno, os aspectos emocionais ligados ao trabalho psicoterapêutico tendem a ser mostrados com uma objetividade que neutraliza a emoção, sendo então "interpretados", "distanciados" ou trazendo as questões de forma teatral, na base do "como se...", que não implicam existencialmente o aluno ao processo, mantendo-o afastado da própria compreensão dos efeitos emocionais do trabalho em si mesmo, tornando-o totalmente despreparado quando a situação real do atendimento psicoterapêutico acontecer.
5.2 Nosso Método: como a ênfase é sobre o aluno, os aspectos emocionais
ligados ao trabalho psicoterapêutico são reais, trabalhados a partir da experiência emocional própria e implicada de cada aluno, facilitando o auto-conhecimento sobre como lidar com as próprias conseqüências emocionais do trabalho psicoterapêutico e trazendo um maior lastro existencial; mais segurança quando a situação real do atendimento psicoterapêutico acontecer.
6.1 Outros métodos: as etapas existenciais comuns a um longo processo psicoterapêutico são negligenciadas, porque o próprio processo de amadurecimento individual no grupo é excluído do método. Desta forma, o aluno não consegue acompanhar a compreensão de um processo de aprofundamento existencial no contato do cliente com ele mesmo, pois o aluno nunca contemplou tal processo neste método. São comuns aqui queixas do aluno que atende clientes "alguns meses" e que "misteriosamente vão embora" sem que o aluno saiba o porquê.
6.2 Nosso Método: as etapas existenciais comuns a um longo processo
psicoterapêutico são focalizadas especificamente em trabalhos
psicoterapêuticos individuais e grupais, onde a ênfase é dada sobre a
compreensão do que cada um aluno faz para não dos mecanismos que utiliza para não perceber-se, como cada um, em cada etapa, dificulta o contato consigo mesmo. Este trabalho é feito através de workshops psicoterapêuticos com temas específicos ligados ao processo psicoterapêutico que mais tarde, o aluno acompanhará no lugar do psicoterapeuta. É comum aqui o aluno perceber como vai "aprofundando" o contato com o cliente, ganhando gradativamente mais e mais confiança no processo e na própria capacidade de acompanhar os mergulhos existenciais do outro.