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Gestalt-Terapia Parte I
Hugo Elidio Rodrigues
Para uma melhor compreensão do que é a "Gestalt-terapia", é importante, antes, efetuarmos uma pequena visualização do contexto histórico, no qual esta vertente da Psicologia Clínica encontrou terra fértil para crescer.
Comecemos pelo final do século passado, na Europa. Com o esforço de um conjunto de estudos que queria chamar a si mesma de "ciência", nasce o primeiro laboratório de Psicologia. Este laboratório ( fundado pelo Dr. Wilhelm Wundt, em 1879 na Universidade de Leipzig ) trazia uma forte influência em sua linha teórica advinda do positivismo científico, que imperava na época, e que continuou imperando durante décadas posteriores ( para maiores detalhes, consultar "referências bibliográficas", livro 1 ) .
O trabalho do Dr. Wundt continha uma grande preocupação com a quantificação, análise e previsibilidade das reações humanas. Conseqüentemente, a base deste trabalho era o "visível", o que era passível de observação e testes que - seguindo a orientação científica - poderiam ser repetidos sob as mesmas condições, achando-se o mesmo resultado. Daí, o trato com a questão da psiquê humana foi reduzido ao "lidar com comportamentos", ao que o ser humano exteriorizava.
Outros teóricos, como John B. Watson ( que lançou em 1913 o texto "A Psicologia tal como vê um Behaviorista" -consultar "referências bibliográficas", livro 3 ) aprimoraram os pressupostos desta Psicologia com base no comportamento, trazendo-a para a prática clínica e estruturando um sistema próprio, que ficou conhecido como "Behaviorismo".
Porém, já próximo do início do século XX, o trabalho de Freud foi aparecendo no cenário mundial, trazendo uma consistente e profunda teoria sobre a personalidade humana ( a Psicanálise), partindo dos comportamentos patológicos ( sua teoria estruturou-se inicialmente sobre a histeria - consultar "referência bibliográfica", livro 4) e apresentando uma preocupação muito maior com os processos mentais, ou seja, priorizando o "mundo interno" .
Através do trabalho do Freud, o homem percebeu o poder de sua vontade, de seu desejo e que todo o positivismo, toda rigidez moral não seria capaz de dominar a natureza humana; já que tal natureza encontrava-se estruturalmente cindida, entre uma parte pequena e passível de controle - que era a consciência- e outra parte insondável, incontrolável e pulsional, que era o inconsciente.
Em resumo, havia então, no cenário mundial do início deste século, algumas abordagens que apresentavam tentativas de compreensão da psiquê humana, trazendo luz para questões fundamentais das relações intra e interpsíquicas. Porém, havia alguma coisa que faltava...
Na Psicanálise, o ser humano era visto como algo "analisável" . Dividido em "partes" que viviam em conflito ( consciente x inconsciente, id x superego, Eros x Tanatos) o ser humamo dependia da análise destas "partes" para ser compreendido. A análise consistia em um trabalho "arqueológico", escavando o terreno superficial da personalidade do indivíduo e atingindo partes esquecidas cada vez mais remotas, longíquas (inconscientes) porém determinantes no suprimento da energia ( libido ) que causava a interferência na vida deste indivíduo, impedindo-o de viver satisfatoriamente ( consultar "referências bibliográficas", livro 5 ) .
Logo, havia uma transferência de responsabilidade implícita nesta abordagem terapêutica, que saía das mãos do paciente e ía para as mãos do psicanalista, já que apenas este detinha o "conhecimento" para a interpretação dos atos e sonhos do indivíduo. Com isto, criou-se uma dependência do paciente ao psicanalista. Segundo Erick Fromm: "... o fato de ter um analista era freqüentemente usado para evitar um temido mas inevitável fato da vida: ter de tomar decisões e aceitar riscos." ( consultar "referência bibliográfica" livro 6 pág.: 11)
No Behaviorismo, o trabalho já era mais "superficial"( entendido aqui como baseado na superfície, sobre aquilo que se vê: comportamentos) e apoiado na possibilidade de novas atitudes a serem aprendidas. A patologia consistia em um "mal aprendizado", e a cura era obtida através de um novo processo de reaprendizagem ( ou recondicionamento ), para suprimir da lista de comportamentos do indivíduo, aquele que era "indesejável". A existência de um mundo interior era ignorada e toda psiquê humana era explicável através de um jogo de forças entre estímulos e respostas, mais tarde aperfeiçoadas para conceitos como condicionamentos operantes, reforços positivos e negativos, etc.
Ressaltamos aqui que nossa intenção é, tão somente, apontar de uma maneira breve, como era o contexto na qual surgiu a Psicologia da Gestalt e, mais tarde, a Gestalt-terapia. Tanto a Psicanálise como o Behaviorismo são escolas de Psicologia que merecem todo um trabalho específico para demonstrar seus pressupostos e conceitos básicos . No escopo deste trabalho, nosso objetivo foi apontar algumas das características destas escolas que originaram controvérsias e que estimularam o aparecimento de outras visões do que é o ser humano.
Em reação a estas visões, principalmente em reação ao trabalho de Wundt ( consultar "referência bibliográfica", livro 7) , surge na Alemanha um campo de pesquisa chamado de "Psicologia da Gestalt ", que primava pela consideração das relações entre as partes e na determinação da percepção do todo em confronto com a idéia do associacionismo (Nota 1) .
A palavra alemã "Gestalt" não tem uma tradução literal para o português, mas contém um sentido de "forma" , de "um todo que se orienta para uma definição", de "estrutura organizada". Um exemplo do que a Psicologia da Gestalt tentava dizer poderia ser ilustrado com o fenômeno ilusório do movimento aparente das lâmpadas em série. Ao colocarmos várias lâmpadas, uma ao lado da outra e acendermos uma de cada vez,apagando a anterior, temos a impressão que a luz "corre" pelas lâmpadas. Ou seja, surge das "partes" ( cada lâmpada) uma forma nova, que dá um outro sentido ao "todo". O artigo sobre este sentido ilusório do movimento foi publicado pelo psicólogo gestaltista Max Wertheimer em 1912. Neste artigo, Wertheimer já prioriza a idéia de percepção como um conjunto, algo que sobressai a partir da relação entre as partes como um todo, e não pela associação de um estímulo ao outro.
Para uma melhor compreensão, segue um outro exemplo clássico utilizado pelos psicólogos da Gestalt . Quando ouvimos uma sinfonia, percebemos que ela é composta por várias partes, tais como o som de cada instrumento, o ritmo e a tonalidade musical. Estas "partes" nos trazem o estímulo auditivo que nos permite reconhecer a música tocada. Porém, a soma de tais partes - a própria sinfonia - não se resume a estas partes, de modo que, mesmo quando algumas destas partes mudam, ainda temos a chance de reconhecer o "todo", a própria sinfonia. Ou seja, podemos mudar os instrumentos, podemos até acelerar ou diminuir um pouco o ritmo, podemos tocar a sinfonia em outra clave musical ( tom acima ou abaixo) e, mesmo assim, a qualidade do todo nos permitirá reconhecer a sinfonia. Como ? Porque segundo as pesquisas da Psicologia da Gestalt, na verdade percebemos é a relação entre as partes que compõem o todo .
A Psicologia da Gestalt foi um campo estritamente experimental, que ocupou-se em trazer questionamentos que foram contrários à visão mecanicista ( causa-efeito) e à visão atomística ( que visa o átomo: a menor parte ou elemento constitutivo das coisas. Na Psicologia: busca determinar se a psiquê é formada por pulsões, ou emoções, símbolos, condicionamentos etc ). Logo, Psicologia da Gestalt e Gestalt-terapia são assuntos diferentes, com campos de atuação e preocupações diferentes. A Gestalt-terapia se preocupa com o campo clínico, com as técnicas de trabalho e estudos que visam dar ao homem as condições necessárias para seu próprio crescimento. Já a Psicologia da Gestalt, foi um campo de pesquisa que trouxe uma série de novas perspectivas para entender a maneira com a qual o homem se relaciona com o mundo.
Assim, décadas mais tarde, outros psicólogos perceberam a importância do conhecimento que a Psicologia da Gestalt trazia e juntamente com outros pressupostos filosóficos ( tais como a fenomenologia , a filosofia existencial-humanista e o zen-budismo), a teoria semântica de Alfred Korzybski, com a Teoria de Campo de K.Lewin, a Teoria Organísmica de Goldstein e pressupostos psicológicos ( tais como a influência de Wilhelm Reich e Alexander Lowen e do Psicodrama de J.L.Moreno) erigiram um campo de conhecimento voltado especificamente para a área clínica. O primeiro autor da Gestalt-terapia foi o então psicanalista Frederic S. Perls, que lançou o livro "Ego, hunger and aggression" em 1942 , já contendo uma série de considerações que tinham o objetivo inicial de produzir uma revisão da teoria de Freud (consultar "referência bibliográfica", livro 8) , mas que, devido a sua controvérsia com alguns fundamentos da Psicanálise, originou o desligamento de Perls do meio psicanalítico ( consultar "referência bibliográfica", livro 9).
Não mais preso ao rígido arcabouço teórico da Psicanálise, Perls investiu na estruturação de um novo campo clínico, escolhendo o nome de "Gestalt" para este novo campo e publicando nos EUA a primeira obra eminentemente gestaltista em 1951 ("Gestalt Therapy", consultar "referência bibliográfica, livro 10).
Gestalt-Terapia:Parte II
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