Ética, Anomia e Utopia

 

Maria das Graças Gouvêa

Este texto é uma reflexão crítica sobre os tempos em que vivemos, e uma comemomeração pelo Dia do Psicólogo em 27.08.2020

 

Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman (2007) estamos vivendo um tempo em que as organizações sociais ¨se decompõem e se dissolvem mais rápido que o tempo que se leva para moldá-las¨ (1). E sendo assim, estas organizações sociais não podem servir de referência para as ações humanas numa perspectiva de longo prazo, ou serem tomadas como base para um projeto de vida.

 

Eu penso que neste momento de pandemia global, estas definições de Bauman foram atualizadas, no sentido da velocidade, pois me parece que mergulhamos num fluxo intenso de informações e mudanças em escala global. Muitos dos modos de ser, conviver, trabalhar, lidar com o cotidiano perderam a familiaridade, a pandemia colocou a vida habitual “em suspensão”.

 

Vivemos em um cotidiano de vivências fragmentadas, onde as experiências passadas não necessariamente garantem sustentação para as experiências futuras. Um tempo no qual tudo parece envelhecer rapidamente: objetos, relações, as próprias normas e parâmetros estabelecidos para lidar com o mundo. Tudo sendo rapidamente substituído por novidades. Num fluxo vertiginoso de experiências em que a virtude esperada de cada um de nós parece ser a flexibilidade, uma capacidade de se desapegar e rapidamente se adaptar a novas realidades.

Mas que impacto isto tem sobre as pessoas? E o que tudo isto tem a ver com a ética e com a psicologia? É o que estou propondo refletir aqui.

Primeiramente várias definições de diferentes filósofos apontam a ética enquanto advinda da preocupação em tratar da conduta humana diante do bem e do mal. Mas eu particularmente prefiro a formulação de Wittgenstein (como citado por Freire Costa), e que define ética enquanto preocupação com “aquilo que tem valor”, “do que realmente tem importância”, “do sentido da vida”, “do que torna a vida digna de ser vivida” e a partir disto encontrar “a maneira correta de viver”. (2)

Escolhi aqui colocar em foco a ética em diálogo com a noção de anomia, (ausência de normas?!) mas curiosamente vivemos uma sociedade de muitas normas, regras e leis. Uma sociedade que acredita cegamente que o controle promove bem-estar e segurança; mas em que, concomitantemente, há leis escritas para não serem cumpridas, seja pela má-fé, a corrupção, ou a simples burocracia.

Mas se nos apegarmos a normas e parâmetros que estão em franca e veloz mudança, ou mesmo a normas que são criadas para confundir-nos ou não serem cumpridas, ou ainda ao que quer que façamos apenas para  ¨mantermos as aparências¨, correremos um sério risco de nos perdermos de nós mesmos. E esquecer quem somos, invertendo o ser pelo parecer...

Há no homem algum sentido ético que, à priori, possa lhe servir de orientação? 

Sou psicóloga e como tal, temos um Código de Ética da profissão; bem como nós , brasileiros, temos a Constituição Brasileira; ou ainda,  se somos crentes de um credo, temos alguns textos sagrados relativos à tal crença, mas todos estes textos repletos de orientações sobre  o que deve ser feito, criam normas e regras de conduta que, no entanto, não se demonstraram  suficientes para atender à nossa condição humana, em sua amplitude de possibilidades. Porque a vida sempre cria perguntas novas...

Quando estamos diante do abismo da Existência, cara a cara com a ausência de sentido, talvez como nestes tempos, quando a vida nos mostra quem somos diante do imponderável, ou do que nunca foi pensado, dito ou experimentado... O que pode nos guiar senão a própria ânsia de sentido? A necessidade do homem de compreender mundo aponta para que entendamos o homem como um ser de compreensão, um ser que busca compreender...

Assim, quanto a mim, penso que o homem é um ser em aberto, que se move por sua sede de sentido, uma sede de ética. Entendo que este ser, essencialmente um ser relacional, não pode prescindir do ambiente a sua volta para crescer ou mover-se. Entendo que este movimento se dá como busca de sentido pela existência, constituindo assim uma compreensão de mundo e uma “maneira de viver”... ou seja, compreensão é uma implicação no mundo que se dá pela forma como vivemos, em busca do sentido da própria existência.

Esta compreensão é pessoal e singular, o que nos leva a outro aspecto da questão: a maneira correta de viver de um é diferente da maneira correta de viver de outro, e isto recorrentemente nos traz a necessidade de transcender a nós mesmos, para ampliarmos nossa compreensão de mundo para além de nosso próprio ponto de vista, incluindo a diferença, incluindo o outro.

Acontece porém, que esta busca de sentido encontra na naturalização do mundo cotidiano um obstáculo importante, muitas vezes quase intransponível, pois é quando cremos que ¨as coisas são assim mesmo¨, que sedimentamos a visão do mesmo, e exaltamos o banimento das diferenças. E é aqui onde os ânimos se exaltam:  como cada um também nunca é o mesmo, a diferença banida acaba retornando e é sentida dentro de si, gerando medo e intolerância,   e podemos reagir violentamente a isto.

Se pudermos compreender este tempo como o momento de transcender as normas obsoletas para criar novas possibilidades de compreensão, e mesmo atravessados por uma velocidade disruptiva que torna tudo sem sentido e fugaz, conseguirmos parar, respirar e contemplar o sentido da vida, e não apenas da nossa vida, fazer deste um exercício diário de resistência à fragmentação, encontraremos o sentido a partir das pequenas coisas.

E assim penso que o momento social brasileiro atual pode ser entendido como uma amostra crítica desta busca, um ponto de mutação diante da experiência de vacuidade reinante... Tudo depende de nossa compreensão e da posição que assumimos diante do mundo que aí está.

Destaco que o lugar da psicologia e da psicoterapia (em particular da Gestalt-terapia e de outras abordagens de fundamentação existencial-humanista) é um lugar de exercer esta busca de sentido, abrindo-se à imensidão da compreensão de si, fincando nossas raízes em nossa ancestralidade, reconhecendo o passado e criando um futuro mais livre dos padrões que limitam nossa própria compreensão e ação, enfim uma busca gestada na utopia de sermos o melhor e mais plenos possíveis e gerar um mundo assim a nossa volta.

¨ E se crescer significa abrir-se à imensidão da luz empurrando [nossas] raízes para a obscuridade do solo, pensar significa responder ao ‘apelo do mais alto céu’, fincado sob a ‘proteção da terra’. ¨ (3)

A Psicologia é um caminho para gestar a utopia.

Viva a Psicologia como ciência e profissão! Parabéns aos colegas psicólogos!  

 

REFERÊNCIAS

(1)  BAUMAN, Z. TEMPOS LÍQUIDOS. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,2007.

(2)  FREIRE COSTA, Jurandir. COMO NOS ESPELHOS– Introdução à "Ética e o espelho da Cultura".

(3)  MATTÉI, Jean-François. A BARBÁRIE INTERIOR: ENSAIO SOBRE O I-MUNDO MODERNO. São Paulo: Editora UNESP, 2002.