Psicopatologia - Mecanismos de Defesa - Resistências

Graça Gouvêa

Os mecanismos de defesa ou de evitação do contato podem ser saudáveis ou patológicos, conforme sua intensidade, sua maleabilidade, o momento em que intervêm e, de uma maneira mais geral, sua oportunidade. " ( ref.: livro 16 ).

A ação do gestalt-terapeuta não deve objetivar atacar, vencer ou superar as resistências, quando o cliente está evitando o contato, mas, principalmente torná-las mais conscientes ou figurais, favorecendo seu uso adaptado à situação do momento.

Um mecanismo de defesa por si só não é bom nem ruim, o uso que o cliente faz dele , o seu funcionamento , isto sim, caracteriza sua "patologia".

Os mecanismos mais citados pelos diferentes autores são:

1. Confluência (Perls) - É um estado de não-contato, por fusão ou ausência de fronteira de contato. O self (si mesmo) não pode ser identificado, ausência de discriminação eu/meio.

2. Introjeção (Perls) - Significa a incorporação de elementos do meio, de idéias a sentimentos, relações, valores etc. Não confundir com o conceito de introjeção da Psicanálise, pois no conceito de Perls há a implicação de um elemento que não foi assimilado. Outros autores de GT (Ginger) referem que a introjeção só é patológica quando não permite a assimilação.

3. Projeção (Perls) - Significa atribuir ao meio elementos da própria subjetividade do sujeito. Para Perls há aqui um deslocamento da responsabilidade do sujeito para o meio. A projeção não-patológica é o que permite a empatia entre os sujeitos.

4. Retroflexão (Perls) - Consiste em voltar para si mesmo a energia mobilizada, fazer a si aquilo que gostaria de fazer aos outros ou que os outros lhe fizessem. São exemplos de retroflexão (tanto patológica como saudável): morder os dentes ou cerrar os punhos para não agredir; a masturbação; o sadismo e o masoquismo; a fala mental etc.

5. Deflexão (Polster) -Permite evitar o contato direto, desviando a energia de seu objeto primitivo.São exemplos: desviar o olhar; "falar sobre"; usar termos técnicos etc.

6. Proflexão (Sylvia Croker) - Uma combinação de projeção e retroflexão, consiste em fazer ao outro aquilo que gostaríamos que o outro nos fizesse.

7. Egotismo (Goodman) - Consiste em um reforço deliberado nas fronteiras de contato, devido a um reinvestimento de energia no ego, uma hipertrofia narcísica; geralmente é uma etapa do processo terapêutico, mas enquanto um estado crônico se torna uma patologia.

Em resumo, quanto a etiologia das neuroses do ponto de vista da Gestalt-Terapia :

- para Perls: com o acúmulo de necessidades interrompidas ou Gestalten inacabadas, o organismo se repete na busca de completar o que está inacabado ou interrompido, fechar a Gestalt;

- para Goodman: o self (si mesmo) teria perdido a função de promover o ajustamento criativo do organismo. Existiram três funções no Self : função id (necessidades corporais, pulsões); função eu(escolha ativa, adaptativa, ajustamentos criativos); função personalidade (auto-imagem). Um sintoma é sempre a resolução mais criativa que o organismo pode alcançar naquele momento.

A GT compreende que a consciência é um evento focalizado no presente, no aqui-agora, isto significa que: para perceber melhor um fenômeno dentro ou fora de mim mesmo, devo estar concentrado em minhas funções de contato. Este fluxo de consciência é conceituado em GT como "awareness"; quando tal fluxo é interrompido significa que a consciência deixou de focalizar sua percepção sensorial para focalizar também uma fantasia. Tais fantasias são a base dos mecanismos de evitação, que podem ter um funcionamento patológico.

A Psicanálise baseia sua compreensão dos fenômenos psíquicos no estudo psicodinâmico destas fantasias, enquanto a GT baseia sua compreensão no estudo do processo de focalização da consciência, devendo portanto abarcar a compreensão das fantasias, mas do ponto de vista do processo e não da fantasia isoladamente. Toda resistência ou defesa é construída através de uma determinada fantasia, mas nem toda fantasia implica em resistência ou defesa.

A patologia não é evitação do contato com a percepção sensorial (posso estabelecer contato com uma fantasia), mas a qualidade e a funcionalidade desta evitação. Se através de uma dada percepção sensorial vem a minha consciência fantasias e imagens, o contato que estabeleço com estas pode ser extremamente criativo e servir a função de elaboração de algo que foi percebido anteriormente.

No jogo entre fantasia e percepção constrói-se o sentido da experiência vivida, quanto mais a fantasia antecipa este sentido, tanto menos a percepção se dá com o fenômeno no presente e sim com as imagens e construções mentais sobre a experiência, bloqueando assim a possibilidade de mudança.

O pensamento e a possibilidade de antecipar e planejar podem ser muito funcionais quando organizamos a contabilidade ou planejamos uma aula, mas se nos impedem de modificar, surpreender e criar, então estão a serviço de nossas fantasias neuróticas.

O psicoterapeuta deve combinar de forma "suficientemente boa" percepção no presente e antecipação cuidadosa, planejamento e surpresa, para ser um instrumento de mudanças criativas possibilitando ao cliente a percepção de novas "gestalten" .

Telefone: (21) 2205-9021