Somatização - Alextimia e Histeria

Graça Gouvêa

Para uma das correntes da Psicossomática, ( ref.:livro 25 ), a alextimia poderia estar na base das doenças psicossomáticas propriamente ditas (artrite, asma etc.), pois a alextimia se refere aos aspectos ou conteúdos que não tem acesso ao processo de simbolização, e seriam vivenciados através do corpo. O termo alextimia significa: a=sem / lex=palavra / timia=afeto.

A somatização, como um processo histérico, entendendo "histeria"como um estilo, um modo de interação com o meio, segundo Liberman (ref.: livro 27), está relacionada à necessidade de produzir uma reação no outro, despertar alguma " emoção" . Assim, a somatização com características histéricas tende a se manifestar carregada de emoção expressa.

Já, no pólo extremo oposto deste contínuum, temos a somatização alextímica, entendendo alextimia como um conjunto de fatores, a saber: dificuldade em identificar e descrever os sentimentos, dificuldade em distinguir entre sentimentos e sensações corporais provocadas pelas emoções, capacidade imaginativa restrita (pouca ou nenhuma fantasia) e um estilo de pensamento concreto e orientado pela ação externa" (ref.: livro 25).

Com estas características, o paciente alextímico é considerado inadequado para o tratamento psicanalítico, pois ao contrário do paciente histeriforme, não estabelece uma " boa " relação transferencial, não devaneia, nem fantasia, e resiste à tecnica interpretativa tradicional, vendo sempre tudo pelo lado concreto.

As técnicas consideradas mais adequadas para o trabalho com somatização alextímica incluem: foco fenomenológico; conduta ativa do terapeuta; relação terapêutica mais subjetiva (holding, acolhimento, apoio) e trabalho em grupo (ref.: livro 25).

Assim sendo, propomos que muitas das técnicas gestálticas, que podem ser utilizadas no trabalho corporal, são de grande valor para o trabalho com o paciente somatizador, principalmente para aquele que apresente graus variados de alextmia, por exemplo (ref.: livro 26):

- exercícios de "awareness" : acompanhando o fluxo de sensação/emoção/pensamento e amplia a possibilidade de percepção e integração entre estes níveis;

- focalizando polaridades: integrando aspectos cindidos e polarizados na relação sujeito-objeto, favorecendo ao processo de síntese e a simbolização;

- amplificação do foco da consciência: trabalhando nas fronteiras de contato

-focalização nos conteúdos que podem ser imediatamente percebidos, ampliando-se gradativamente a partir daí até a percepção, por parte da consciência, das idéias/ valores/ identificações conflitantes;

- interpelação direta: falar com...e não falar de ..

- estimulando o contato relacional não-interpretativo, do terapeuta para com o cliente e deste em relação as suas próprias percepções

- cadeira vazia (trabalho de projeção ativa ) : o terapeuta estimula que o cliente estabeleça um contato mais direto com suas próprias introjeções e fantasias, sugerindo o diálogo do cliente com estas mesmas fantasias de forma dramatizada;

- trabalho com os recursos pré-verbais: estimulação do movimento espontâneo, sensibilização através da música,da dança, do teatro e da arte em geral, ressensibilização a capacidade imaginativa e a fantasia, abrindo margem a novas possibilidades simbólicas.

Conclusão:
- Os pacientes somatizadores, até aqueles que apresentam traços de impossibilidade simbólica, ( ao nosso ver, principalmente estes) se beneficiam de uma estratégia terapêutica que lhes favoreça a presentificação e a focalização da consciência no processo perceptivo, discriminando sensação-emoção-pensamento, viabilizando novas conexões de sentido e de possibilidades simbólicas em um "continuum " de consciência que se encontra interrompido.

- Trabalhando nas fronteiras de contato de tais pacientes com experimentos gestálticos, utilizando a amplificação da expressão espontânea, estaríamos oferecendo os recursos necessários a que gradativamente se possibilitasse a expansão dos limites entre a ação e a subjetividade destes pacientes.

- O trabalho corporal em Gestalt-terapia, além de ser grandemente indicado para pacientes somatizadores, é um instrumento terapêutico de valor em qualquer situação, pois possibilita que o paciente vá, no seu próprio ritmo, reconhecendo e redefinindo novas fronteiras de contato, favorecendo o que em gestalt denominamos "trabalhar através da resistência (ou da defesa)"

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