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Artigos
“A Dialética dos processos perceptivos – diferenciação e dediferenciação
Hugo Elídio Rodrigues e Graça Gouvêa
Resumo
Este artigo refere-se a trabalho com o mesmo título apresentado pelos autores no XI Encontro - VIII Congresso Nacional de Gestalt-terapia (Rio de Janeiro, Setembro, 2007). O trabalho constituiu-se num workshop didático-terapêutico e a respectiva fundamentação teórica se encontra aqui desenvolvida.
Palavras-chave
Diferenciação – dediferenciação – teoria de campo – dialética perceptual.
Fundamentação teórica
Tomando como embasamento teórico e referência principal o trabalho de Perls, entendemos que o processo psicoterápico é apoiado em uma estratégia de percepção/diferenciação/assimilação. Isto poderia sugerir uma espécie de direção única, uma linearidade do processo, partindo da percepção e encaminhando-se para a assimilação, mas esta não seria uma interpretação correta. Pois como Perls também nos explicita, a existência humana se afirma como uma luta dialética entre o fluir da consciência e forças que inibem ou dificultam este livre fluir. Esta(s) força(s) Perls denominou de “antiexistência” (Perls, 1977 pág. 84). E o resultado desta luta denominou de “existência sintética” (ibd.).
Desta forma, além de lidar com o processo natural da percepção dos aspectos relevantes da relação terapeuta/cliente, facilitando ao cliente seu processo de diferenciação e assimilação, eventualmente o terapeuta se depara com situações que apontam para a direção contrária, como se houvesse uma espécie de regressão no processo.
Citando um exemplo de casos de lesão cerebral que redundam em uma regressão da personalidade como um todo, Perls utilizou o termo “dediferenciação” como um sinônimo para a regressão (Perls, 1979 – pág. 81). O termo dediferenciação é igualmente utilizado e profundamente analisado por Kurt Lewin.
Perls, lamentavelmente, não cita a origem deste conceito quando o utiliza, porém, considerando a já propagada e bem defendida utilização da Teoria de Campo de Kurt Lewin na Gestalt-terapia (segundo os autores Ribeiro, Yontef, Spanguollo, Ginger, entre outros) e mesmo o reconhecimento de Perls, Hefferline e Goodmam (“Gestalt-terapia”, p. 32) para o trabalho de Lewin e da Psicologia da Gestalt, assumiremos, neste trabalho, que utilizar o termo “dediferenciação” segundo a ótica de Lewin, muito poderá ajudar na construção de experimentos e sensibilizações, que aprimorarão a capacidade perceptiva tanto do cliente como do próprio terapeuta, facilitando o trabalho em situações ou passagens regressivas.
Como dediferenciação, Lewin (1965, capítulo V) nós dá a seguinte explicação: o processo de amadurecimento é um processo que implica em uma diferenciação cada vez maior do “campo vivencial” da pessoa, de modo que aumentam suas sub-regiões, suas fronteiras, surgindo novas barreiras e obstáculos. Desta forma, uma criança tem seu campo vivencial mais homogêneo, limitado a sub-regiões restritas, com pouca autonomia para transitar entre elas e transitar para outras regiões. Com o amadurecimento, este homogeneidade vai-se ampliando, diferenciando-se em novas sub-regiões. Logo, a idéia da dediferenciação se dá quando estas sub-regiões são “negadas”, ou artificialmente anuladas, de modo que a pessoa quer “voltar” a um nível de simplicidade anterior, não assumindo os riscos inerentes à nova situação.
A fim de esclarecer o rigor semântico/conceitual dos termos diferenciação e dediferenciação e a forma como estamos empregando-os em nosso trabalho, esclarecemos alguns pontos a seguir.
Nossa intenção é ressaltar os aspectos metodológicos já defendidos por Perls, quando este nos fala da importância do pensamento dialético e nos apresenta o pensamento diferencial (Perls, 2002, pág 45). Devido a tal importância, realizamos pesquisas que pudessem apontar – dentro dos referenciais teóricos da Gestalt-terapia – idéias para aplicações técnicas da visão dialética.
Foi quando percebemos o potencial da Teoria de Campo para isso e, dentro desta, experimentamos em nossa prática clínica, o conceito de diferenciação, a partir da representação topológica, e reconhecemos seu potencial para a ampliação da percepção da complexidade existencial experimentada pelo indivíduo (representada pela ampliação de sub-divisões no espaço vital do indivíduo), e o reconhecimento de seu pólo, que é o conceito de dediferenciação. Devido ao bem sucedido experimento desta técnica em nossa experiência clínica, tivemos o interesse de trazê-lo ao congresso.
Conseqüentemente, quando nos propomos a realizar um experimento caracterizando que momentos de maior complexidade ou de expansão devem ser representativos de maior diferenciação, assim como momentos de recolhimento ou de retraimento, devem ser representativos da dediferenciação, nosso enfoque é exclusivamente no ponto de vista dialético. Neste enfoque tais conceitos se apresentam como movimentos que se afirmam em uma direção, gerando novos movimentos contrários.
Desta forma, não estamos aqui efetuando nenhuma analogia especifica ao ciclo de contato organísmico, que experimenta seus próprios movimentos de pré-contato, contato e contato final.
Temos ciência que Perls cita a palavra regressão e dediferenciação em um contexto de pacientes mais graves, porém utilizamos tal citação como uma abertura para o pensar sobre as possibilidades de uso para além das situações críticas expostas por ele lá. Ou seja, podemos considerar também os movimentos não crônicos de retraimento como algo passível de – sob a técnica vivencial da polaridade diferenciação/dediferenciação – serem melhor explorados fenomenologicamente pelos clientes. Assim não necessariamente estamos referindo a um retraimento rígido, cristalizado ou crônico, mas um retraimento no sentido exato como utilizado por Perls.
Nas próprias palavras de Perls:
“Como tudo o mais, o que escrevo é ditado pelo ritmo do contato e retraimento. Após ter escrito a última página, senti cansaço e pressão na cabeça. Agora, o cansaço é o sinal organísmico por excelência para o retraimento. Mais uma vez, sinto o mesmo cansaço depois de apenas duas sentenças... Voltei ao sofá para entrar em contato com a pressão e me deparei com enfrentamento que é uma polaridade muito mais apropriada para o retraimento. O contato está presente em ambas as situações. Para exemplificar: enfrentar é estar em contato com a ZE (zona externa, o outro, o meio ambiente); retrair-se é entrar em contato com a ZM (zona média, intermediária) ou mesmo a ZS (zona do self ou zona interna). A regressão não é um sintoma neurótico conforme observava Freud. E, certamente, não é a característica básica do neurótico. Ao contrário, o retraimento, regressão, recuo, significa assumir uma posição na qual possamos enfrentar, ou a partir da qual possamos obter o apoio necessário no sentido de atender a uma situação inacabada mais importante. Se a elasticidade de formação figura/fundo estiver danificada, se, no nosso caso, enfrentar e retrair-se não se suplementarem mutuamente, teremos que tratar de um enfrentamento crônico e de um retraimento crônico, que são ambos sintomas patológicos.”
Conclusão
Temos a compreensão de que a Gestalt-terapia, devido à sua abertura em termos de técnicas utilizadas nas intervenções clínicas, propicia uma ampla gama de possibilidades. Defendemos que tal abertura, entretanto, sempre possa ser embasada metodologicamente em coerência com a fundamentação filosófica desta abordagem.
Bibliografia:
LEWIN, K. Teoria de Campo em Ciência Social, tradução: Carolina Martuscelli
BORI, São Paulo: Pioneira, 1965.
PERLS, F.S., GOODMAN, P., HEFFERLINE, R. Gestalt-terapia, tradução: Fernando
ROSA RIBEIRO, São Paulo: Summus, 1997.
PERLS, F.S. Ego, Fome e Agressão. São Paulo: Summus, 2002.
________ Escarafunchando Fritz - Dentro e fora da Lata de Lixo. 2ª. edição.
São Paulo: Summus, 1979.
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