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ARTIGOS Uma doença mental que se chama diagnóstico
Márcia Hillebrand
Psicóloga CRP 05/33579
A contribuição, embora modesta, deste estudo, pretende promover uma reflexão a respeito do uso do psicodiagnóstico pelo senso comum e em psicoterapia, tanto no que tange a sua necessidade, quanto aos problemas que este pode causar.
A busca por uma explicação, um nome ou um sentido para os eventos da vida sempre foi preocupação do homem. Rituais, lendas, histórias infantis, orações, músicas, crendices diversas e toda a forma de expressão cultural foram utilizadas desde os primórdios da humanidade para saciar essa necessidade.
Na evolução da humanidade o conhecimento passou do senso comum para a mão dos cientistas e destes, novamente para o senso comum, incluindo uma série de interpretações e re-interpretações durante esse processo. Moscovici (1978) coloca que após o surgimento da ciência o homem passou a pensar por procuração, através do que os cientistas produzem de conhecimento. Mas esta forma de conhecimento não é pura e racional, passa por transformações e associações com o background social prévio.
Da mesma forma, no processo de desenvolvimento humano individual, a capacidade de identificar e nomear sentimentos, ações e fatos da vida cotidiana é imprescindível para a saúde mental. No decorrer de toda a vida a busca de explicações para as mais diversas situações segue de forma constante, sendo que a própria psicoterapia pode ser citada como uma maneira de satisfazer a necessidade de dar sentido aos fatos da vida cotidiana.
Desta necessidade surgem as questões de diagnóstico psicológico, necessário por um lado e perigoso por outro, que guarda dentro de si tanto esclarecimento quanto sufocamento. Ao profissional de psicologia deve guiar as intervenções, mas não cegar sua visão total do paciente. Ao senso comum deve orientar a busca de ajuda, mas não rotular ou enquadrar qualquer sentimento em patologias.
O diagnóstico na Gestalt-terapia:
Na sua história, a Gestalt-terapia passou por algumas discussões importantes sobre o uso do diagnóstico, acabando por reconhecer sua importância. Yontef (1998) dedica uma boa parte de seu livro a esta discussão, de maneira esclarecedora e ponderada, situando o processo diagnóstico na Gestalt-terapia e defendendo seu uso.
Com o surgimento do movimento do potencial humano o relacionamento psicoterápico ganhou uma nova abordagem, onde não mais se falava em cura-doença, mas sim em verdade-compreensão. Na crítica feita às demais teorias o diagnóstico acabou sendo incluído na lista das exclusões, deixando um grande mal-entendido sobre a seriedade das psicoterapias humanistas.
Felizmente, com o desenvolvimento de pesquisas de terapeutas interessados em trabalho responsável e de qualidade, admite-se hoje que o diagnóstico é necessário para nortear os tratamentos na clínica psicoterápica. Sabe-se o quão diferentes devem ser as intervenções de acordo com o diagnóstico e o quanto isso pode levar a psicoterapia ao sucesso ou ao fracasso.
Por outro lado, é preciso lembrar de olhar a pessoa além do dos seus sintomas, buscando o que existe de saudável e que dará sustentação ao crescimento. Yontef (1998) propõe que:
"... o diagnóstico na Gestalt-terapia deva ser feito com reconhecimento completo da estrutura do todo. Quando se está lidando com pessoas, significa levar em conta a imagem que elas têm de si mesmas e de sua identidade no tempo, o contexto do significado de sua interação atual, a história de tais interações em vários contextos que formam o pano de fundo no momento atual e semelhantes." (p.289)
O termo "estar doente" ao invés de "ser doente", parece ser uma boa estratégia para não perder de vista o ser integral e a noção de processo que fundamenta as teorias humanistas. "Estar doente" lembra do cuidado para não deixar com que toda a vida gire em torno de um diagnóstico imutável, escondendo atrás deste, sentimentos naturais e desculpas para evitar os riscos do crescimento, bem como aspectos saudáveis da personalidade.
Embora transtornos mentais existam e certamente precisam de tratamento especializado, deve-se tomar cuidado para não utilizar o rótulo de doente a quem está apenas vivendo, pois a vida tem tudo isso: amor, tristeza, mau humor, agressividade, alegria, dor de saudade, ansiedade por um dia de prova, medo do perigo, insegurança, orgulho, inveja, ciúmes, vergonha, desejos, dúvidas, frustrações, expectativas,....A vida é um processo dinâmico, as pessoas mudam, o contexto muda. Quem é você hoje, aqui e agora? É o mesmo de ontem, de dez anos atrás, do ano passado?
O diagnóstico no senso comum:
Atualmente, com a popularização dos nomes e conceitos dos transtornos mentais, como por exemplo, depressão, TOC, transtornos de humor, transtorno bipolar, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, dentre outros, novos fenômenos do comportamento surgem perante esta imensa quantidade de informações. Se por um lado estas informações ajudam a desmistificar a doença mental e a levar pessoas em sofrimento ao tratamento adequado, por outro, rotulam e cronificam o problema, ou ainda provocam uma grande confusão entre sensações vitais normais e patologias mentais.
Este fenômeno pode ser visto sob a ótica das representações sociais de Moscovici (1978), que estudou a forma como os conhecimentos da psicanálise passaram a fazer parte do cotidiano do senso comum dos franceses, provocando mudanças tanto no comportamento da sociedade como na própria psicanálise. Nas últimas décadas este processo pode ser observado com quase todo conhecimento científico disponibilizado, inclusive com as questões diagnósticas em saúde mental. O senso comum desenvolve uma representação dos transtornos mentais e passa a utilizá-las no seu modo de vida.
Embora muitas coisas tenham melhorado pela divulgação dos possíveis diagnósticos e tratamentos, houve também efeitos nocivos relativos aos seus excessos.
A socialização de grande número de informações a respeito de psicopatologias trouxe mudanças importantes no entendimento das depressões, alcoolismo e muitos outros diagnósticos, que anteriormente eram tratados como simples "má vontade". Durante um longo período, diversas pessoas sofreram estigma e maus tratos pela falta de compreensão de seus comportamentos, sendo até castigados por estarem doentes. As "doenças do pensamento" eram tidas como arbitrárias, diferentemente das doenças do corpo.
A vida é repleta de fatos, afetos, situações diversas, momentos agradáveis e desagradáveis, e é preciso ter cuidado para não rotular todos os comportamentos com alguma doença mental. O exagero no uso destas informações diagnósticas tende a categorizar qualquer sensação desagradável em alguma patologia, levando a sociedade a buscar um ideal inexistente de saúde mental e equilíbrio. Sentir raiva, tristeza, ansiedade, medo, ciúmes, insegurança passam a ser atacados, como se fossem sintomas doentios. Muitas vezes a intensidade de sua expressão é desconsiderada na avaliação do senso comum e até por muitos profissionais que contribuem para esse fenômeno de medicalização da vida. (1)
Se o humor oscila, entre estar motivado com a vida e triste por coisas que não deram certo em algum projeto, é algo que cabe no que dizia a revista sobre Transtorno Bipolar. Se um filho carece de limites e disciplina, a justificativa está no Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. E assim poderiam ser citados inúmeros exemplos.
Um outro fenômeno que pode ser observado é a reação das pessoas ao tomarem contato com estas informações a respeito de um transtorno mental e que geralmente se traduzem em falas como:
É isso que tenho, na verdade sou Bipolar!
E em algumas semanas quando a mídia publica algo sobre TOC, a confusão está criada:
Não, na verdade o que tenho é esse tal de TOC.
Outro fenômeno importante é o que se segue a essa categorização, muitas vezes exagerada. Uma vez "rotulada" de depressiva, hiperativa, obsessiva, ou outros diagnósticos propostos, estas características tendem a se auto-realizar ou perpetuar. São geralmente rótulos com "colas" muito potentes!
Não é raro encontrar pessoas que um dia foram diagnosticadas como depressivas e essa se tornou sua "marca registrada" por muitos e muitos anos, como se fosse condenada a seguir assim para o resto da vida, jamais questionando ou observando quem ela é, além dos sintomas depressivos.
Com crianças é muito comum o fenômeno de auto-realização daquilo que é projetado sobre ela. Crianças que ouvem o tempo todo que são agitadas, quietinhas, medrosas, tristes e sabe lá o que mais, acabam assumindo mesmo o papel que lhes é destinado. O impacto de um comentário repetitivo do tipo "coitada, ela tem depressão" pode ser devastador!
Parece que a permanência deste tipo de rótulo está também cumprindo um papel, muitas vezes de proteção, de ajustamento criativo. O medo de enfrentar as dificuldades do processo vital, a dificuldade de definir limites com os filhos são apenas alguns exemplos de situações que ficam protegidas atrás do diagnóstico. Como se o fato de nominar o fenômeno fosse suficiente para encerrar o assunto.
Observa-se, deste modo, como as informações a respeito de saúde mental podem tanto ajudar como atrapalhar a busca pela saúde. È necessário que profissionais das mais diversas áreas da saúde estejam atentos à representação da saúde mental de cada um de seus pacientes.
É importante frisar que a totalidade e a singularidade de cada pessoa incluem também sua estrutura psicológica, mas vai além dos sintomas que trazem sofrimento. Cada pessoa é um todo complexo e integrado, que se apresenta fenomenologicamente na interação com o terapeuta. De um lado alguém precisando auxílio e de outro um profissional com conhecimentos que serão utilizados neste processo, não como regra rígida e autoritária, mas como compreensão e clarificação num caminho trilhado conjuntamente.
Esta reflexão buscou demonstrar a necessidade de equilíbrio e ponderação no uso do psicodiagnóstico, tanto no campo profissional quanto na mídia, assim como em substancias químicas, onde a linha de separação entre o remédio e o veneno é dada pelo uso apropriado ou abusivo.
Nota
1- O termo "medicalização da vida" foi utilizado pelo vienense Ivan Illich, para designar a progressiva invasão pela medicina de amplos setores da vida humana.
Bibliografia:
YONTEF, Gary M.. Processo, diálogo, awarness. São Paulo: Summus, 1998.
MOSCOVICI, Serge. A Representação social da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos, e outros episódios da história cultural francesa. Rio de Janeiro: Graal, 1986.
ILLICH, Ivan. A expropriação da saúde - nêmesis da medicina. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.
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